que lindo este bilhete!

sabes que no outro dia esqueci-me de trancar a porta
e passei o dia longe de casa
a achar que ia ser assaltada
porque a porta não fecha bem quando não a tranco
e o homem do primeiro andar contou-me
que anda gente a sondar a entrada do prédio

a porta lá de baixo também não fecha bem


obrigada pelo teu presente


"não acreditar faz parte

e não é mau de todo
desde que não paralise"



via M.

tenho aquela teoria


de que há bens que vêm por mal

e tento desconfiar quando

alguém

se mostra demasiado disponível


sabes,

existem oráculos

específicos

pra confirmar ao que vem quem chega


de mim ninguém se aproxima

sem me informar

com todas as palavras e dentes

aquilo que pretende


       pelo sim pelo não,

saco do baralho


já que a intuição,

      contrariamente ao que se diz

às vezes falha     e

ninguém

está a salvo de desconhecer as suas próprias intenções 







nós não aceitámos isto

preferimos a via lenta
contra o decreto dos prazos
prolongamos ao máximo a estadia
sempre que possível


era assim tão difícil


interromper isto?

é muito raro ter vagar de sobra

contas pelos dedos as vezes em que te puseste

do lado de fora,

quase nunca tentaste

dar ao corpo exatamente aquilo que ele pede

pelo esforço que requer

lutar contra a satisfação da névoa


sabe bem, não é?

ficas admirada com o tamanho deste buraco

e com o tanto que há pra ver


dói tanto

é tão bom








 



  








                        











em horária,


a pessoa que faz a pergunta chama-se querente
o assunto ou objeto da pergunta é o quesito

nestas coisas de dar nome
sempre me fascinou que
querer e crer
se oiçam da mesma maneira

assim como, para as crises de fé,
o remédio santo consiste em sulcar o
caminho do desejo,

o antídoto para a falta de chama
só se obtém quando nos esquecemos de
duvidar











sim, mas 

não há como desimpedir caminho simplesmente
o que hoje pesa amanhã parecerá leve
e o mistério só perdura entre
a recusa do aleatório
e a ignorância face ao grande plano

se não fosse eu,
esquecias-te da ordem
         neste dia, isto
                 naquele dia, aquilo

vai dizendo,
eu vou arrumando



P.S.: nunca mais te quero ouvir dizer
que não me lembro de nada

     antes 

já toda a gente dizia
que antes é que era bom
porque a nostalgia atravessa as décadas
"quando havia futuro"


achas mesmo que isto é pior




(tens de clicar)



achas que vivemos na época?

se adjudicar o tempo a que pertencemos é um exercício tardio
e artificial
colocar a questão nestes termos          irrita-me
não me interessa

assim como não me interessam muitas das perguntas que se fazem
tipo

quando é que a coisa descamba?

como assim era tudo um caos
antes

 

é por isso 


que não olho para as legendas nos museus

e admiro as pinturas como se tivessem sido pintadas ontem


lembras-te daquelas cápsulas japonesas?


mas é ao contrário do que pensas

a confusão instala-se quando deixamos

       de discernir os limites,

convive com a tentativa de nos organizarmos

e pode bem ser a condição do alívio que esse vício nos traz







































 olha,


não havia outra maneira de começar
vou dizer as coisas como elas são
podem faltar-me referências mas
já estivemos aqui muitas vezes
a mania de tratar o tempo como se fosse um lugar
a mania das épocas douradas
e de as separar entre elas e das outras
e de etiquetar datas em caixas de arquivo
e de levar a sério a nossa história

de todas as confusões em que estamos enterradas
eu digo-te já não há
uma
que não comece no vício de localizar
o início e o fim de uma etapa
ou de uma fase

o calendário dá-nos o mote de um ritmo
inuniformizável