se fosse tudo de outra maneira

não era preciso estar sempre a
racionalizar sobre
porque é que não conseguimos
construir coisas juntas
com o tempo que elas merecem
ou a arranjar desculpas
psicológicas
para a nossa indisponibilidade crónica

e podíamos sentar-nos a fazer cestas
enormes
cheias de tudo aquilo de que precisamos
de facto

como se fosse possível imaginar
um mundo
que se tece em torno da abundância
onde os vendavais são oportunidades
de deixar tarefa a meio
para pôr as mãos noutro lugar



tantas
maneiras
de nos
reconhecermos
sem nos
conhecermos




















(Belgrado, maio 2026)


hvala

encontro-me, muitas vezes, num lugar

onde sinto que não sei que perguntas formular
as perguntas, para mim, nunca são o princípio
na verdade, costuma ser ao contrário
eu sei alguma coisa
algo que se insinua como uma espécie de certeza ou fundamento
uma – e é por isso que, só depois, me ponho em busca de provas
isto é,
no mundo céptico em que vivemos,
do seu aspeto visível e material
uma forma de mostrar o que eu sei

então
o ponto de partida, para mim
não é uma pergunta, é uma seta
a pergunta é, justamente, o alvo que a seta procura
e com sorte
encontra

também é por isso
que as respostas não me interessam
assim tanto



aqui 

        não houve grandes estragos
por enquanto
vou agindo de forma natural
antes que reparem

hoje dou mais um passo no programa
aprender a destrinçar porque é que há 
dias que nascem tortos
tudo sem sair da cama


não, não se vê nada
além do nevoeiro
é como se estivéssemos separadas do mundo
por esta cortina branca